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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Confissão


Hoje matei um homem. Três tiros. Três palavras. Lentos. Frios. Premeditados. Desejados por mais de trinta anos. O primeiro acertou de raspão o ombro esquerdo. Sua morte não deveria ser muito rápida. Aquela criatura mesquinha e castradora, antes de ser devorada pela morte e pelos vermes, deveria saber quem era o seu algoz. Reconheceu-me. Não tão incrédulo quanto eu esperava, mas ainda assim, incrédulo. Jamais me julgará impotente e covarde novamente. Segundo tiro. Consegui ser um pouco mais incisivo. Um excitante perfume de sangue espalhou-se pelo ar: o cio atraindo um cão sedento. Acertei-o na barriga. O contraste entre aquele vermelho melífluo e o branco repugnante daquela camisa causava-me um inenarrável prazer estético. Era o nascimento de uma obra transcendendo o seu autor. Mas a criatura manteve-se de pé, forte, apenas as costas um pouco arqueadas. Olhou-me nos olhos. Creio que sorriu. Sempre o mesmo olhar soberbo. Sempre a mesma amplitude desprezível. Pacientemente, parecia aguardar o golpe final, implacável, impiedoso. Foi no coração, certeiro, sem réplica. Três balas. Em cada uma, uma palavra. Uma após outra, numa sucessão geometricamente gradativa de sensações cujo desfecho eu não imaginava ser tão fartamente prazeroso. Na primeira, a palavra “Eu”, seca, enfática, que assegurou à vitima o reconhecimento da intenção do ato. Na segunda, “Te”, o limiar entre uma certa perplexidade causada pelo primeiro tiro e a agora certeza do terceiro. Na última, “Odeio”, a queda do oponente e o gozo do assassino, que virou as costas e partiu, indiferente, com a sensação dignificante de dever cumprido. No chão, estendido, enlameado por aquele sangue sujo e diabético que escorria na direção do ralo do banheiro, ficou meu pai.